Do favoritismo ao drama: a jornada que testou o coração tricolor
A classificação veio. Respiremos fundo, nobres tricolores. O objetivo primordial foi cumprido, e o Fluminense estará nas oitavas de final da Copa Libertadores. Contudo, a elegância e a tranquilidade que deveriam pautar nossa caminhada deram lugar a um roteiro de suspense digno dos piores pesadelos. De favoritos absolutos a meros coadjuvantes de nossa própria sorte, a campanha do Fluzão foi uma provação.
Quando o sorteio nos colocou ao lado de Independiente Rivadavia, Bolívar e Deportivo La Guaira, um sorriso de canto de boca foi inevitável. Parecia um caminho pavimentado para uma classificação serena. Mas, como a história insiste em nos ensinar, no futebol, e especialmente com o Fluminense, o óbvio é uma miragem. Transformamos o que era para ser um passeio em um dos dramas mais intensos de nossa história recente no torneio.
Zubeldía admite: a soberba que quase nos custou caro
Até mesmo nosso comandante, Luis Zubeldía, reconheceu que o cenário inicial era, no mínimo, convidativo. Em suas próprias palavras, a análise era clara: “No papel, pela estrutura do Fluminense, pelo investimento do clube e pelo peso que tem um time brasileiro na Libertadores, eu reconheço que era um grupo acessível. Não fácil. Fácil é uma palavra que não cabe no futebol.”
A sabedoria do técnico se provou profética. A palavra “fácil” foi banida de nosso vocabulário já na estreia. A campanha começou a descarrilar antes mesmo de engrenar, e o que era para ser uma demonstração de força virou um exercício de sobrevivência.
Os primeiros tropeços: quando a paz abandonou as Laranjeiras
A jornada do calvário teve início na Venezuela. Um empate em 1 a 1 contra o Deportivo La Guaira, num jogo em que criamos o suficiente para vencer, mas saímos com a sensação amarga de dois pontos jogados fora. Reclamações de arbitragem à parte, a eficiência nos abandonou.
O golpe mais duro, porém, estava reservado para o nosso templo sagrado. No Maracanã, diante de nossa gente, sofremos uma derrota por 2 a 1 para o Independiente Rivadavia. Sair na frente e sofrer a virada em casa, quebrando uma longa invencibilidade como mandante na Libertadores, foi uma afronta. Ali, o sinal de alerta não apenas soou; ele urrou, ensurdecedor.
La Paz e o flerte com o abismo
Com a confiança abalada, viajamos para enfrentar o Bolívar e seus infames 3.600 metros de altitude. A derrota por 2 a 0 em La Paz, embora um resultado plausível nas circunstâncias, caiu como uma bigorna sobre nossas pretensões. Chegamos à Bolívia já pressionados pelos pontos perdidos e voltamos ao Rio com a corda no pescoço. Cada partida, a partir daquele momento, se tornou uma final antecipada.
A nação tricolor, acostumada a ver um time de guerreiros, se perguntava onde estava a alma da nossa equipe. O favoritismo havia se esvaído, dando lugar a uma matemática cruel e a uma dependência angustiante de outros resultados.
John Kennedy: o predestinado que nos negou o fim
A eliminação parecia selada na penúltima rodada, em Mendoza. Novamente contra o Independiente Rivadavia, o algoz do Maracanã. Saímos atrás no placar, jogávamos mal e o tempo se esgotava. O fim era iminente, a crônica de um vexame anunciado estava sendo escrita.
Foi então que, do banco de reservas, surgiu a figura messiânica de John Kennedy. O nosso “Raio”. Nos minutos finais, ele fez o que parecia impossível, marcando o gol de empate em 1 a 1. Aquele gol valeu muito mais que um ponto. Foi um desfibrilador no coração tricolor. Manteve-nos vivos, respirando por aparelhos, mas vivos. JK, o predestinado, se consolidava como o personagem central desta saga.
Uma noite de transistores no Maracanã
A rodada final foi a apoteose do sofrimento. Fizemos nossa parte com uma vitória por 3 a 1 sobre o Deportivo La Guaira. Mas a festa no Maracanã era contida, nervosa. Todos sabiam que nossa glória dependia de um favor dos deuses do futebol a milhares de quilômetros de distância, onde Bolívar e Independiente Rivadavia se enfrentavam.
As cenas eram surreais. A torcida comemorando gol anulado do adversário, o silêncio tenso a cada atualização, os ouvidos colados nos rádios de pilha imaginários. Após o apito final no Rio, ninguém arredou o pé. Jogadores e torcida, em comunhão, esperavam pelo desfecho na Bolívia. Quando a notícia da vitória do Rivadavia se confirmou, a explosão de alívio foi catártica. Uma celebração não de conquista, mas de sobrevivência.
Classificamos. Mas a lição foi dura. Agora, nas oitavas, o destino, em sua mais fina ironia, nos coloca novamente diante do Independiente Rivadavia. É a chance da revanche ou o prenúncio de mais um capítulo de angústia? Uma coisa é certa: este time foi forjado no fogo da adversidade. Que venham os desafios. Somos o Fluminense. E sofremos, mas não morremos. Flu até morrer!
Informações com base em reportagem do www.lance.com.br.