Uma vitória com sabor de derrota
Classificar na Copa do Brasil deveria ser motivo de festa. E, no papel, foi. Vencemos o Operário-PR por 2 a 1 na última terça-feira e carimbamos o passaporte para as oitavas de final. No entanto, a nação tricolor assistiu, mais uma vez, a um filme de terror que se repete: o drama de nossa própria defesa. Um jogo que deveria ser tranquilo se tornou um teste para os nervos por conta de, adivinhe só, mais uma falha defensiva individual. É o roteiro que assola o Fluzão e joga uma pressão quase insuportável sobre a equipe.
Os números, caros tricolores, são cruéis e não mentem. Nas últimas 13 partidas, nosso gigante Fábio só conseguiu o luxo de não buscar a bola no fundo da rede em duas míseras ocasiões. DUAS. Ambas em empates sem graça por 0 a 0, contra o mesmo Operário no jogo de ida e contra o Deportivo La Guaira, na Venezuela. É uma estatística que grita, que ecoa pelas arquibancadas e nos grupos de WhatsApp: nossa defesa virou uma avenida.
O desabafo sincero e preocupante de Zubeldía
Em meio ao caos, o técnico Zubeldía, em um raro momento de sinceridade quase dolorosa, abriu o jogo. Quando confrontado com a fragilidade crônica do sistema defensivo, o comandante não se escondeu atrás de clichês. Pelo contrário, sua análise foi um soco no estômago do torcedor que anseia por respostas.
“Alguns gols são evitáveis. Temos três zagueiros que vêm sendo titulares de janeiro para cá, que são Freytes, Ignácio e Jemmes. Depois chegou o Millán. Há o Igor (Rabello) com bem menos minutos. São três zagueiros que, pela experiência no Brasileirão, sempre vou tomar minha decisão de acordo com o que o jogo pede. Estatisticamente estamos tomando gols, mas nem sempre por domínio (do adversário), algumas vezes por coisas pontuais. Não sei te dizer o porquê. Pode ser insegurança porque não estávamos ganhando, o momento do ano… Pode ser falta de sorte. É algo que temos que melhorar. Temos a condição de melhorar”, desabafou o treinador.
O trecho “Não sei te dizer o porquê” é o que mais assusta. Um técnico admitir que não consegue diagnosticar a causa raiz do principal problema do time é de uma honestidade desarmante, mas também profundamente preocupante. Insegurança? Falta de sorte? A torcida das Laranjeiras espera mais do que um talvez.
Os réus do tribunal tricolor: quem são os culpados?
A análise da fonte, e que infelizmente bate com o que vemos em campo, aponta para múltiplas frentes. A primeira, e mais óbvia, é a má fase individual de peças que deveriam ser o pilar da nossa segurança. Tanto Ignácio quanto Jemmes vivem um momento terrível, colecionando falhas que parecem infantis para atletas de seu nível. A insegurança, alimentada pelas justas cobranças da arquibancada, parece ter se instalado de vez.
O problema se estende para a lateral-esquerda, onde nem Renê nem Arana conseguem transmitir a confiança necessária. São erros em sequência, que minam não apenas o placar, mas a moral de todo o esquadrão.
Como se não bastasse, há uma total falta de entrosamento. Zubeldía, na tentativa de encontrar uma solução, acaba por agravar o problema. A fonte é clara: nos últimos dez jogos, o técnico mudou ao menos dois dos quatro defensores a cada partida. Essa dança das cadeiras, que coincide com o nosso pior momento defensivo, impede que qualquer química ou padrão de jogo se estabeleça. É o famoso “cobertor curto”: cobre a cabeça e descobre os pés.
A bola de neve do desgaste e o futuro na Libertadores
Para completar o cenário de desolação, há o fator físico. A maratona de jogos e as viagens intermináveis cobram seu preço. O desgaste físico não é apenas uma desculpa, é um fator real que impacta a concentração, a tomada de decisão em frações de segundo e, claro, a capacidade de recuperação. Esse cansaço gera mais alterações, que por sua vez atrapalham o entrosamento, criando a tal “bola de neve” que parece nos soterrar a cada rodada.
E agora? Agora a conta chegou, e ela é alta. Para seguirmos vivos na Copa Libertadores, a missão é hercúlea: precisamos vencer o Bolívar por três gols de diferença. Fazer três gols já é uma tarefa complexa para qualquer time. Fazê-lo sem sofrer gols, com esta defesa, parece uma quimera. É uma missão que exigirá perfeição, algo que não vemos há muito tempo.
Uma coisa é certa: a pausa para a Copa do Mundo é uma miragem distante. Até lá, o Fluminense precisa, urgentemente, encontrar um jeito de estancar essa sangria. Seja com reza, com treino, com mudança de peças ou de postura. Do contrário, corremos o risco de ver uma temporada promissora desmoronar, não por falta de talento, mas por uma fragilidade que se tornou nossa marca registrada. Que os deuses do futebol olhem por Laranjeiras.
Informações com base em reportagem do ge.globo.com.