Um Maracanã de vaias e a sinceridade desconcertante do nosso técnico
No futebol, há vitórias com sabor de derrota. E a noite de ontem, caros tricolores, foi um desses banquetes amargos. Classificamos na Copa do Brasil, é verdade. O objetivo primário foi cumprido. Mas a que custo? Sob um coro de vaias que ecoou pelo Maracanã, o Fluminense mais uma vez flertou com o desastre, e a entrevista coletiva de Luis Zubeldía após o apito final foi um retrato da nossa perplexidade.
O técnico argentino, com sua elegância habitual, não usou de subterfúgios. Pelo contrário, sua honestidade foi tão afiada quanto uma lâmina, expondo a ferida aberta na nossa defesa e a mentalidade de um time que parece ter esquecido como se impõe. Vencemos o Operário, mas a sensação é de que o nosso maior adversário, neste momento, veste a mesma camisa que nós.
O mistério do apagão de Jemmes: ‘Não sei o que ele pensou’
O ponto nevrálgico da noite, o lance que fez cada tricolor levar as mãos à cabeça, foi o gol sofrido. Um cruzamento despretensioso, uma bola que parecia sob o domínio absoluto do zagueiro Jemmes. E então, o inexplicável. O erro crasso. O gol do Operário que transformou um jogo controlado em minutos de puro pânico.
Questionado sobre o lance, Zubeldía foi cirúrgico e brutalmente sincero. “A verdade é que eu não conversei com o Jemmes sobre o que aconteceu naquele cruzamento, quando parecia que ele tinha a bola controlada para afastar. Não sei o que ele pensou naquele lance”, disparou o comandante. Uma frase que resume o sentimento de toda a nação tricolor. O que se passou na cabeça dele?
O treinador aprofundou a análise sobre o nosso calcanhar de Aquiles, a defesa. Ele nos lembrou que, desde o início da temporada, a zaga titular foi pensada com um trio específico: “Esses três sempre foram Juan, Jemmes e Ignácio”. Millán e outros correriam por fora. A escolha, segundo ele, se baseia na experiência. Mas a realidade estatística é cruel. “É verdade que, estatisticamente, sofremos gols. Às vezes não por domínio do adversário, mas por situações pontuais”, admitiu.
Zubeldía se mostrou tão perdido quanto nós para encontrar uma única razão. “Pode ser um pouco de insegurança, porque não vínhamos vencendo, pode ser o momento da temporada… Evidentemente, é algo que precisamos melhorar. É uma pena.” A sinceridade é bem-vinda, mas a falta de respostas acende um alerta em Laranjeiras.
A hierarquia dos pênaltis: por que John Kennedy bateu?
Em meio ao caos, um vislumbre de organização. Quando o segundo pênalti foi marcado, e John Kennedy, nosso Menino Rei, pegou a bola para cobrar mesmo com Savarino em campo, muitos podem ter se perguntado sobre a ordem dos fatores. Zubeldía fez questão de esclarecer que ali, pelo menos, não havia improviso.
“Nós sempre colocamos dois cobradores. Colocamos um responsável pelo pênalti, nesse caso o Savarino, e um segundo cobrador, que é o John Kennedy”, explicou o técnico. A lógica é impecável: ter um plano B para o caso de um segundo pênalti ou da recusa do primeiro batedor. “Há treinadores que colocam apenas um cobrador. Nós sempre colocamos dois. O número um e o número dois. Então isso já está planejado.”
É um pequeno detalhe, mas que revela um método por trás da aparente desordem. Uma prova de que, nos bastidores, o trabalho é meticuloso. Resta saber quando essa organização sairá do papel e se traduzirá em 90 minutos de tranquilidade para a torcida das Laranjeiras.
A crônica de uma classificação sofrida: do alívio ao pânico
O roteiro do jogo foi um clássico do Fluminense em sua versão 2024. Começamos com um gol de pênalti de Savarino, logo aos oito minutos, que deveria ter trazido a paz necessária para uma atuação de gala. Ledo engano. O time tirou o pé, a intensidade caiu e o modesto Operário começou a gostar do jogo, assustando o nosso paredão Fábio.
No início da segunda etapa, o maestro Lucho Acosta, em um lance de pura classe argentina, tirou o goleiro Vagno da jogada e ampliou, fazendo 2 a 0. A classificação parecia liquidada. Parecia. Faltou combinar com a nossa própria capacidade de nos complicarmos.
O Fluzão deu o jogo por vencido. E, como castigo, aos 37 minutos, Felipe Augusto aproveitou a falha grotesca da nossa zaga para diminuir. O Maracanã, que antes bocejava, agora roía as unhas. A sorte, ou talvez o destino, nos sorriu quando Edwin Torres foi expulso logo em seguida, evitando o que poderia ser um abafa histórico nos minutos finais.
Nas palavras do próprio Zubeldía: “Terminamos sofrendo, mas passamos, que era a prioridade. Estamos em um momento em que tudo custa o dobro para nós”.
O que esperar deste Fluminense?
A classificação veio. Estamos nas oitavas da Copa do Brasil. Mas a que preço? A atuação pobre, o erro individual bizarro e a necessidade de contar com a sorte para não sofrer o empate ligam todos os alertas. A honestidade de Zubeldía é um alento, pois mostra que o diagnóstico interno é claro. Ninguém está satisfeito.
Ele queria “vencer, golear e convencer”. Ficamos apenas com o primeiro verbo, e aos trancos e barrancos. A torcida que ama, que apoia, também cobra. E as vaias de ontem foram um recado claro. Este time tem talento para muito mais, mas precisa urgentemente encontrar a segurança e a concentração perdidas. Que essa classificação sofrida sirva de lição. Porque na Libertadores, meus caros, o preço do erro é infinitamente maior. Flu até morrer!
Informações com base em reportagem do www.lance.com.br.