Um alívio amargo na noite argentina
Meus caros tricolores, respirem. O Fluminense está vivo na Libertadores. Um gol de John Kennedy, o predestinado, nos acréscimos, nos deu um empate em 1 a 1 contra o Independiente Rivadavia que, sejamos honestos, tem sabor de vitória e cheiro de milagre. Mas que ninguém se engane. O suspiro de alívio não pode abafar o som do alarme, que soa mais alto do que nunca em Laranjeiras.
A verdade, nua e crua, é que sobrevivemos por um fio. Um ponto conquistado muito mais pela competência individual de um goleiro santo e pela sorte que sorri aos que teimam em não morrer, do que por qualquer mérito coletivo. Aquele time que, há um mês e meio, era aclamado como o melhor futebol do Brasil, hoje é uma pálida sombra de si mesmo. E isso é preocupante.
O retrato de um time perdido em campo
O técnico Zubeldía, mesmo com retornos importantes, mandou a campo uma escalação ofensiva. A intenção era clara: vencer. A execução, contudo, foi um desastre. O primeiro tempo do Fluzão foi um dos espetáculos mais melancólicos dos últimos tempos. Terminamos os 45 minutos iniciais sem uma única finalização na direção do gol adversário. Inacreditável.
Rodávamos a bola de um lado para o outro, numa posse de bola estéril, inofensiva. Enquanto isso, o time de Mendoza, com muito menos grife, acelerava e criava chances com uma facilidade assustadora. A noite de nossos homens de frente, especialmente Canobbio e Castillo, foi para esquecer. Pareciam empenhados em devolver a bola aos argentinos a cada tentativa de ataque.
Fábio, o Santo Protetor das Laranjeiras
Se não fosse por Fábio, a crônica desta noite seria a de um vexame histórico. O nosso goleiro, mais uma vez, mostrou por que é um dos maiores da nossa história. Aos três minutos, já operava o primeiro milagre em finalização de Sartori. Depois, viu a sorte o acompanhar quando Arce carimbou o nosso travessão.
Mas a sorte protege os competentes. No fim da primeira etapa, quando o gol argentino parecia maduro, Fábio fez outra defesa monumental em chute de Florentín, um verdadeiro milagre que nos manteve no jogo. Se há um pilar neste time, ele atende pelo nome de Fábio.
Os pecados capitais do nosso esquadrão
O intervalo pareceu fazer bem. Voltamos com outra postura, mais agressivos. E foi aí que nossos dois problemas crônicos gritaram. O primeiro: a ineficiência assombrosa. Castillo, livre, errou uma cabeçada que um juvenil não perdoaria. Pouco depois, Savarino fez um pivô de manual para Nonato, de dentro da área, chutar para fora. Criamos, mas desperdiçamos como um milionário excêntrico.
O segundo pecado, nosso eterno calcanhar de Aquiles: a bola aérea defensiva. Numa sequência de escanteios, a defesa cochilou. Gómez cruzou após cobrança curta de Villa, Ignácio errou o tempo da bola e Arce, o mesmo que acertara o travessão, antecipou-se a Freytes para testar para as redes. Um gol que já vimos acontecer dezenas de vezes. Um gol anunciado.
A luz de Kennedy e a dura realidade que nos espera
Atrás no placar, o time se desesperou. Apenas Lucho Acosta parecia ter alguma racionalidade em meio ao caos. A pressão final foi na base do abafa, do cansaço do adversário e de bolas alçadas para Soteldo na esquerda. Foi uma mistura da lucidez de Lucho com uma dose cavalar de sorte.
E então, ele. John Kennedy. O homem dos momentos decisivos. O Urso achou o gol que nos mantém respirando. Um sopro de esperança, sim. Mas a realidade é matemática e cruel. Para avançar às oitavas, a missão é hercúlea: precisamos vencer o Bolívar por três gols de diferença na próxima rodada.
Para um time que sofre para criar, desperdiça o que cria e não consegue defender um cruzamento, a tarefa parece quase impossível. Mas nós somos o Time de Guerreiros. A esperança é a última que morre. No entanto, uma coisa é certa: ou essa equipe melhora, e melhora muito, ou o sonho da Glória Eterna terá um fim prematuro e doloroso. Flu até morrer, mas que seja lutando de verdade.
Informações com base em reportagem do ge.globo.com.