Um Gol que Vale Mais que um Ponto: Vale a Honra
Houve momentos, caros tricolores, em que a noite de quarta-feira em Mendoza parecia destinada a entrar para o infame rol dos nossos pesadelos continentais. Mas o futebol, em sua essência mais poética e cruel, reserva capítulos para os predestinados. E John Kennedy, com a camisa 9 que lhe cai como uma coroa, escreveu mais um parágrafo de sua saga heroica com as três cores que traduzem a tradição. O empate em 1 a 1 com o Independiente Rivadavia, arrancado aos 45 minutos do segundo tempo, não foi apenas um ponto; foi um grito de que o Time de Guerreiros, mesmo cambaleante, se recusa a morrer.
A verdade precisa ser dita: a atuação foi sofrível. Mas em noites de Libertadores, quando a técnica falha, é a alma que nos salva. E o gol de Kennedy, o Urso, foi pura alma. Um respiro, uma sobrevida, a manutenção da chama, por mais tênue que seja, para decidir nossa sorte no templo sagrado do Maracanã.
Um Domínio Inútil e a Crônica de uma Frustração Anunciada
Quem assistiu ao primeiro tempo viu um roteiro que já conhecemos de cor. O Fluminense, com sua pose aristocrática, mantinha a bola nos pés, trocava passes com uma elegância estéril, mas era tão inofensivo quanto um leão de pelúcia. A posse de bola, que para alguns é sinônimo de controle, para nós, naquela noite, era apenas a prova da nossa incapacidade de ferir o adversário.
Enquanto o Fluzão tocava de lado, o Independiente Rivadavia, com a astúcia típica de quem joga a Libertadores em sua essência, esperava. Cada contra-ataque, cada bola parada, era um calafrio na espinha da nação tricolor. O perigo era iminente, palpável, e a nossa superioridade no papel se desfazia a cada investida argentina.
Zubeldía, Castillo e Decisões que Quase nos Custaram a Vida
A segunda etapa foi um atentado aos nervos do torcedor. O que era um temor se tornou realidade: a bola aérea argentina, sempre ela, encontrou a cabeça de Arce. Gol deles. O desespero se instalou. E no banco, nosso técnico Luis Zubeldía parecia assistir a outro jogo.
A insistência com Rodrigo Castillo em campo foi, para ser elegante, uma teimosia incompreensível. O jogador, perdido em campo, não apenas teve dificuldade em dar sequência às jogadas, como ainda perdeu uma chance claríssima de cabeça. Para piorar o cenário, teve um gol anulado em um lance no mínimo discutível com o goleiro Bolcato. A bola quicou em sua cabeça e entrou, mas o apito do uruguaio Gustavo Tejera soou, marcando uma falta que as imagens não confirmaram com clareza. Uma noite para Castillo esquecer.
Enquanto isso, Canobbio, em um raro momento de lucidez da equipe, ficou de cara para o gol e isolou a bola, desperdiçando a chance de empatar e recolocar o time no jogo. A paciência da torcida das Laranjeiras se esvaía a cada minuto.
As Cartas da Salvação: Entram Kennedy e Soteldo
Quando a noite parecia perdida, Zubeldía finalmente olhou para o banco e sacou os ases que guardava na manga. As entradas de Soteldo e, principalmente, de John Kennedy, mudaram a face da partida. O ‘baixinho’ venezuelano trouxe o drible, a velocidade e a audácia que faltavam na ponta, empurrando a defesa argentina para seu próprio campo.
Mas a estrela da noite tinha nome e sobrenome. John Kennedy. O homem-gol. O predestinado. Ele não precisa de 90 minutos. Em uma bola que sobrou na área, onde o centroavante de ofício vive e respira, ele fez o que dele se espera: guardou. Um chute seco, um estufar de redes, um desabafo. Um gol para nos lembrar que, com ele em campo, a esperança nunca morre.
A Boa Notícia e a Dura Realidade Matemática
Em meio ao caos, uma luz: o retorno de Lucho Acosta. O maestro argentino, recuperado antes do previsto, foi o cérebro da equipe, o autor de quase todas as nossas parcas chances criadas. Sua presença é um alento e uma necessidade para as batalhas que virão.
Ainda assim, a situação no Grupo é dramática. Com o empate entre Deportivo La Guaira e Bolívar, a classificação ficou assim: Independiente Rivadavia líder com 10 pontos, seguido por Bolívar com cinco, e La Guaira com três. Nós, o glorioso Fluminense, amargamos a lanterna com dois pontos. A missão é hercúlea, mas o gol de Kennedy nos permite sonhar.
Agora, a cabeça se volta para o Brasileirão. O próximo compromisso do Tricolor é contra o Vitória, no sábado (9), às 18h (de Brasília), uma chance de reorganizar as ideias antes das próximas finais que teremos pela frente.
Ficha Técnica – Independiente Rivadavia 1 x 1 Fluminense
- Competição: Libertadores – 4ª Rodada
- Data e Horário: Quarta-feira, 6 de maio de 2026, às 21h30 (de Brasília)
- Local: Estádio Malvinas Argentinas, em Mendoza (ARG)
- Gols: Arce (20’/2T) para o Independiente Rivadavia; John Kennedy (45’/2T) para o Fluminense
- Cartões Amarelos: Bottari, José Florentín (IRM); Guga, Hércules, Nonato e Acosta (FLU)
Escalações:
INDEPENDIENTE RIVADAVIA (Técnico: Alfredo Berti)
- Bolcato; Bonifacio (Osella), Studer, Costa e Gómez (Elordi); Villa, Florentín, Bottari e Fernández (Bucca); Sartori (Gonzalo Ríos) e Alex Arce (Villalba).
FLUMINENSE (Técnico: Luis Zubeldía)
- Fábio; Guga, Ignácio, Freytes e Arana; Hércules (Soteldo), Alisson (Alisson) e Lucho Acosta; Savarino (John Kennedy), Canobbio (Serna) e Rodrigo Castillo.
Arbitragem:
- Árbitro: Gustavo Tejera (URU)
- Assistentes: Martín Soppi (URU) e Agustín Berisso (URU)
- VAR: Antonio García (URU)
Informações com base em reportagem do www.lance.com.br.