O dia em que o impossível vestiu as três cores
Existem jogos que são apenas jogos. E existem jogos que se transformam em lendas, em capítulos dourados na tapeçaria da história de um clube. Para a nação tricolor, o dia 1º de novembro de 2009 é um desses marcos indeléveis. Naquela tarde de domingo, no hostil Estádio do Mineirão, o Fluminense, com a corda da Série B já beliscando o pescoço, não apenas venceu o poderoso Cruzeiro; ele reescreveu as leis da probabilidade.
O placar de 3 a 2, depois de estar perdendo por 2 a 0, foi muito mais do que três pontos. Foi a certidão de nascimento do “Time de Guerreiros”, a prova cabal de que, para o Fluminense, a lógica é apenas uma sugestão. Comandados por um Cuca em estado de graça e liderados por um Fred predestinado, o esquadrão de Laranjeiras protagonizou uma das maiores sagas da era dos pontos corridos.
Um primeiro tempo de pesadelo no Mineirão
Vamos ser sinceros: o início foi um desastre. Do outro lado, um Cruzeiro treinado por Adilson Batista, que havia sido finalista da Libertadores naquele mesmo ano e brigava no topo da tabela. Uma máquina. E nós? Nós éramos um time com chances matemáticas altíssimas de rebaixamento, tentando sobreviver com uma zaga formada por Gum e Dalton, protegendo o gol de Fernando Henrique.
A Raposa, sentindo o cheiro de sangue, partiu para cima. Com a articulação de Gilberto e a dinâmica de Fabrício e Henrique, o time mineiro nos sufocava. Aos 12 minutos, a tragédia anunciada: Jonathan, após passe de Gilberto, abriu o placar. O gol foi uma facada na nossa já combalida confiança.
O Tricolor não conseguia respirar. O argentino Darío Conca, nosso maestro, era uma ilha de talento cercada por marcadores por todos os lados. Para piorar, aos 30 minutos, o equatoriano Joffre Guerrón, aquele mesmo, fez um cruzamento na medida para Wellington Paulista ampliar. 2 a 0. O Mineirão era uma festa azul e branca. Para nós, restava o silêncio e a sensação de que o fim havia chegado. O apito do intervalo soou como uma sentença.
A genialidade de Cuca e a alma de volta ao corpo
O que acontece em um vestiário pode mudar o destino de um clube. E o que Cuca fez naquele intervalo em Belo Horizonte deveria ser estudado. O treinador, percebendo a apatia e a falta de profundidade da equipe, agiu com a precisão de um cirurgião. Sacou os meio-campistas Diguinho e Ezequiel González, que não se encontravam em campo.
Em seus lugares, entraram o jovem defensor Digão e o meia-atacante Tartá. A mudança não foi apenas de peças; foi de espírito. O Fluminense voltou para o segundo tempo com as linhas adiantadas, mordendo, pressionando a saída de bola do Cruzeiro. Aquele time abatido deu lugar a uma matilha faminta. A alma havia retornado ao corpo tricolor.
Três minutos que abalaram o Brasil
A nova postura logo surtiu efeito. A bola parada, tantas vezes nossa aliada, seria a chave. Aos 9 minutos da etapa complementar, 54 no total, um escanteio foi cobrado na área mineira. E lá estava ele, o zagueiro Gum. Subiu mais alto que a muralha formada por Gil e Thiago Heleno e testou firme, sem chance para o goleiro Fábio. 2 a 1. Era o gol da esperança, da teimosia.
O Cruzeiro sentiu o golpe. O estádio, antes em festa, virou um caldeirão de tensão. E o Fluminense percebeu. Apenas três minutos depois, aos 12 do segundo tempo, o milagre tomou forma. Numa jogada orquestrada por Darío Conca, a bola encontrou seu destino final: os pés do matador. Com a frieza que o consagraria, Fred finalizou com precisão cirúrgica. 2 a 2. O impossível acontecia. O time virtualmente rebaixado estava igualando o placar contra um dos melhores times do país, em sua própria casa.
A epopeia concluída: Nasce o Time de Guerreiros
O empate não satisfez o Fluzão. A máquina tricolor não tirou o pé. Com Maicon Bolt infernizando pela velocidade e Mariano se infiltrando, a defesa da Raposa entrou em pânico. O terceiro gol não foi um acaso; foi uma consequência. Uma consequência da fé, da tática, da coragem.
A virada foi selada. O placar final de Cruzeiro 2 x 3 Fluminense ecoou pelo Brasil não como uma zebra, mas como a ascensão de algo novo. Naquela tarde, no gramado do Mineirão, o Fluminense não fugiu do rebaixamento. Ele começou a trilhar o caminho da glória, mostrando a todos que lutar até o fim não é uma opção, é a nossa essência. Aquele dia, tricolor, foi o dia em que o mundo nos conheceu como o Time de Guerreiros. E nunca mais nos esqueceram.
Informações com base em reportagem do www.lance.com.br.