Um Show Uruguaio com a Camisa Errada
A noite de segunda-feira foi um coquetel de sentimentos para a nação tricolor. De um lado, o amargor de mais uma rodada do Brasileirão sem o Fluzão em campo; do outro, a fúria ao assistir pela televisão um talento que é nosso, mas que brilha em outro quintal. Joaquín Lavega, emprestado pelo Fluminense ao Coritiba, simplesmente destruiu o jogo contra o Bahia. O resultado? Um golaço, uma assistência e uma vitória de virada por 3 a 2 para o time paranaense.
Enquanto o esquadrão de Laranjeiras por vezes sofre para encontrar criatividade, Lavega, com a camisa do Coxa, dançava em campo no Couto Pereira. A cada drible, a cada passe genial, a cada lampejo do uruguaio, uma pontada no coração de cada tricolor que se pergunta: por que ele não está aqui?
A Miopia Crônica de Laranjeiras
A revolta que tomou as redes sociais não é para menos. É o retrato de uma gestão esportiva que, por vezes, parece sofrer de uma miopia crônica. Lavega, que chegou ao Rio de Janeiro com o selo de ‘grande promessa’ e um contrato até o fim de 2029, foi tratado como um mero detalhe no elenco.
Os números são um insulto à inteligência do torcedor. A fonte aponta que, em 2025, o jogador teve apenas cinco míseras oportunidades com o nosso manto sagrado. Cinco. Sem ritmo, sem sequência, sem a confiança necessária para mostrar o futebol que o colocou na prestigiosa lista de melhores jovens do mundo do jornal inglês The Guardian. A solução encontrada? Empacotá-lo e enviá-lo para Curitiba no início do ano.
A ‘Desculpa’ dos Treinadores: Faltou Paciência ou Visão?
Como se justifica a dispensa de um ativo tão promissor? A resposta, ou a falta dela, passou por três treinadores. Em uma entrevista, o então técnico Renato Gaúcho chegou a declarar, sem rodeios, que Lavega e seu companheiro Lezcano ‘ainda não estavam prontos para atuar’. Não estavam prontos ou não houve a competência para prepará-los? Uma pergunta que ecoa em Laranjeiras.
Com Zubeldía, a situação beirou o surreal. O jogador, um meia-atacante de ofício, chegou a ser testado como lateral-esquerdo, numa daquelas improvisações desesperadas que tanto nos assombram, apenas por ser canhoto, assim como Renê e Fuentes. É o cúmulo da falta de planejamento: contrata-se um violinista para tocar tambor.
A atuação de gala contra o Bahia não é um caso isolado. Lavega vem crescendo, ganhando titularidade e se tornando peça-chave no Coritiba. O que era para ser uma lapidação em casa, virou uma vitrine para os outros. E nós, torcedores, ficamos com a cara de quem pagou a festa para o vizinho se divertir.
Um Talento Global Ignorado em Casa
Vale lembrar que não estamos falando de um jogador qualquer. Destaque no River Plate, do Uruguai, Lavega não era uma aposta cega. Era um projeto, um talento reconhecido internacionalmente. Ignorar esse pedigree é de uma arrogância que o futebol moderno não perdoa. O Fluminense investiu, trouxe o jogador com status de craque em potencial, para depois deixá-lo encostado por ‘não estar pronto’.
A torcida, que tem uma memória de elefante, não esquece. Vimos Cícero, Wagner, e tantos outros desfilarem em campo com uma paciência que nunca foi concedida a jovens como Lavega. A política do ‘pronto’ versus ‘a ser preparado’ parece ter dois pesos e duas medidas em nosso clube.
O Futuro é uma Incerteza Dolorosa
Com contrato longo, até 2029, Lavega ainda é, no papel, um patrimônio do Fluminense. Mas a que custo? A cada gol, a cada assistência com a camisa do Coritiba, seu valor de mercado aumenta, e a irritação da torcida também. Voltará ao final do empréstimo? Se voltar, encontrará um ambiente diferente, uma comissão técnica que saiba usar seu talento?
Ou será ele mais um na longa lista de ‘ex-Fluminense’ que estouram em outros clubes, nos deixando apenas com a melancólica pergunta: ‘e se?’. A performance contra o Bahia foi um grito. Um grito de Lavega dizendo ‘eu estou aqui’, e um grito da torcida tricolor, farta de ver o futuro escorrer pelos dedos. A diretoria precisa ouvir. Flu até morrer, mas não de raiva.
Informações com base em reportagem do www.lance.com.br.