Um Déjà Vu em Verde, Branco e Grená
A nação tricolor vive dias de apreensão e calculadora na mão. Nesta quarta-feira, o Maracanã será palco de uma decisão com ares de final para o Fluminense na Libertadores. O adversário é o La Guaira, mas o verdadeiro inimigo é a matemática e, talvez, a própria desconfiança. Contudo, para os que têm memória e sangue tricolor nas veias, este roteiro não é inédito. A história, caprichosa como é, parece nos oferecer um repeteco de uma de nossas mais gloriosas noites.
O cenário atual é desafiador, para dizer o mínimo. O esquadrão comandado por Zubeldía amarga a terceira posição do Grupo C, com meros cinco pontos. Para carimbar o passaporte para as oitavas, a missão é dupla: vencer no Maracanã e torcer fervorosamente por um tropeço do Bolívar, que enfrenta o Rivadavia longe da altitude de La Paz, em Santa Cruz de la Sierra. Um roteiro dramático, digno de uma epopeia que só o Fluzão sabe protagonizar.
A Profecia de um Ídolo: A Batalha de 2011
Quem viveu 2011, sabe. E quem melhor para nos guiar por essa memória do que um dos pilares daquele time? O zagueiro e ídolo Gum, em entrevista ao repórter Filipe Zampoli, da Globo, traçou um paralelo que acende a chama da esperança em qualquer coração tricolor. Naquela Libertadores, a situação era assustadoramente similar.
“Um pouco da semelhança é que pegamos a altitude e enfrentamos o Argentinos Juniors que não era um time tão grande na Argentina, e nesse ano a mesma coisa. E se complicou da mesma maneira”, relembrou o xerife. Aquele time, que viu Enderson Moreira assumir o leme após a saída de Muricy Ramalho, também chegou à última rodada com os mesmos cinco pontos. A diferença? A tarefa era ainda mais hercúlea: vencer o Argentinos Juniors por dois gols de diferença, em plena Buenos Aires, e secar o Nacional do Uruguai.
Gum, com a autoridade de quem esteve lá, mandou o recado: “Acho que o Fluminense tem que colocar o ‘algo a mais’ em campo, o coração, e entender que o Fluminense é, historicamente que, quando acha que impossível, ele surpreende. Tem que entrar com o espírito de guerreiro, de que nós vamos conseguir, dar a voltar por cima. Com todas as semelhanças, está preparado para que a história se repetir.”
Crônica de um Milagre Anunciado
As coincidências não param por aí. O grupo de 2011 era o de número 3, que hoje corresponde à nossa chave C. O favoritismo pelo título do Brasileirão no ano anterior não se traduziu em tranquilidade. “Nossa expectativa era de confrontos duros, mas que íamos nos impor pela qualidade, força e classificaríamos em primeiro no grupo, mas o futebol é muito competitivo”, admitiu Gum.
A penúltima rodada daquela campanha foi um balde de água fria: uma derrota por 2 a 0 para o Nacional, em um confronto direto que parecia sob controle. O golpe foi duro, mas serviu para forjar o aço dos guerreiros. Para completar o clima de tensão, às vésperas da decisão em Buenos Aires, Emerson Sheik foi afastado por indisciplina.
O palco estava montado para o caos. Ou para a glória.
Uma Noite em Buenos Aires: Quando 8% Foi o Bastante
A partida contra o Argentinos Juniors foi um filme. O Fluminense abriu o placar com Julio Cesar, mas o árbitro Wilmar Roldán logo marcou um pênalti controverso para os donos da casa. O sonho parecia ruir. Mas este time tinha Fred. Em uma cobrança de falta magistral, o ídolo nos colocou na frente novamente antes do intervalo.
O segundo tempo foi pura taquicardia. Oberman empatou para os argentinos. O impossível batia à porta. Mas o Time de Guerreiros não se entrega. Aos 22 minutos, Rafael Moura, o He-Man, nos deu a vantagem mais uma vez. Faltava um gol. E ele veio dos pés do capitão. Fred, de pênalti, na reta final, fez o quarto gol. O placar de 4 a 2 era o que precisávamos. No outro jogo, o resultado paralelo nos favorecia.
Com apenas 8% de chance, o Fluminense avançou. A classificação foi selada com uma briga generalizada ao apito final, a catarse de uma noite que entrou para o panteão das nossas maiores façanhas. Nesta quarta, o cenário se repete. O Maracanã será nossa Buenos Aires. Cabe a este elenco honrar a história e mostrar, mais uma vez, que para o Fluminense, o impossível é apenas uma questão de opinião. Flu até morrer!
Informações com base em reportagem do ge.globo.com.