A vitória por 2 a 1 sobre o Bolívar, em uma noite de terça-feira no Maracanã, deveria ser motivo para soltar o grito entalado na garganta. Mas a nação tricolor, com sua elegância e percepção aguçada, sabe que nem todo triunfo é para ser comemorado com euforia desmedida. O placar nos mantém vivos na Libertadores, é verdade, mas a sensação que fica é a de um navio que, mesmo vencendo a tempestade, continua com um rombo preocupante no casco. E coube ao nosso paredão, o experiente Fábio, dar voz a essa angústia coletiva.
Em uma entrevista que soou como um manifesto, o goleiro não usou de meias palavras. Enquanto alguns poderiam celebrar os três pontos, Fábio preferiu a honestidade cortante de quem vê o problema de perto. O gol sofrido, mais um para a coleção, não foi um mero detalhe. Foi o sintoma de uma doença que teima em não sarar.
Uma defesa de portas abertas
Os números, caros tricolores, são cruéis e não mentem. Chegamos ao oitavo jogo consecutivo sendo vazados. São 11 gols sofridos nesta sequência preocupante. É como entrar em campo sabendo que, em algum momento, a rede vai balançar. E não a do adversário. A nossa. Essa fragilidade transforma cada partida em um exercício de superação hercúlea, onde precisamos marcar duas ou três vezes para garantir uma vitória simples.
Contra o Bolívar, o roteiro se repetiu. Mesmo com o time de Luis Zubeldía buscando o ataque para construir um saldo de gols confortável, os espaços na retaguarda eram avenidas convidativas. O adversário, sem precisar de muito esforço, encontrou o caminho do nosso gol, gerando aquele calafrio que já se tornou familiar para quem veste as três cores que traduzem tradição.
O recado do capitão: ‘É erro de leitura nosso’
É nos momentos de crise que os verdadeiros líderes se revelam. E Fábio, com a serenidade de um monge e a contundência de um general, assumiu o microfone e entregou a análise mais lúcida da noite. Ele foi claro ao dividir a responsabilidade, tirando o peso exclusivo da linha de zaga e distribuindo-o por todo o time.
Nas palavras do nosso goleiro: “Todas as situações a gente tem que corrigir. A situação do gol fica muito nítida ali para a parte da defesa, mas são situações que englobam o grupo todo. Então a gente tem que, lógico, tentar corrigir quando as coisas não dão certo ali na frente.”
Mas o ponto crucial de sua fala, a frase que deveria estar estampada no vestiário de Laranjeiras, foi a seguinte: “São situações que têm que ser cada vez mais observadas no dia a dia… para não dar essas oportunidades que as equipes adversárias estão tendo. Às vezes nem tanto por qualidade do adversário, mas muito por algumas situações de leitura do nosso time.”
O recado é claro: a falha é nossa. É de concentração, de leitura tática, de comprometimento coletivo. Não é o adversário que está sendo genial; somos nós que estamos sendo displicentes. Uma verdade dura, mas necessária.
Kennedy salva, mas o alerta permanece
Em meio ao caos defensivo, uma luz brilha com intensidade. John Kennedy, o nosso Urso, mais uma vez mostrou por que se tornou o dono do Fluminense. Foi dele o gol da vitória, um gol que nos mantém respirando por aparelhos na competição continental. Sua presença de espírito e sua capacidade de decisão são um oásis no deserto de instabilidade que por vezes assola a equipe.
Contudo, não podemos cair na armadilha de acreditar que o talento individual de Kennedy ou de outros será sempre suficiente. A vitória foi garantida, mas o alerta defensivo soa mais alto do que nunca. Confiar apenas em lampejos de genialidade é flertar perigosamente com o fracasso.
A calculadora na mão e o olho na Argentina
A realidade na Libertadores, agora, é matemática pura. A vitória sobre o Bolívar não nos devolveu o controle do destino. Para avançar às oitavas de final, a missão é dupla: precisamos, obrigatoriamente, vencer o Deportivo La Guaira na última rodada e, simultaneamente, secar o Bolívar em seu confronto contra o Independiente Rivadavia.
Depender de terceiros é sempre um cenário desconfortável, a antítese da grandeza do Fluminense. Mas é a situação que nossa própria irregularidade nos impôs. Antes de pensar na tabela, porém, a equipe tem outro compromisso. O próximo desafio é contra o Mirassol, no sábado (23), pelo Campeonato Brasileiro, mais uma oportunidade para mostrar que o recado de Fábio foi, de fato, compreendido.
As palavras do nosso goleiro ecoam como um chamado à razão. O Fluzão precisa se reencontrar com sua solidez. A vitória é sempre bem-vinda, mas a performance é o que define um time campeão. E, no momento, a performance defensiva do Time de Guerreiros está longe de ser digna de nossa história.
Informações com base em reportagem do www.lance.com.br.