Toda grande ópera precisa de um maestro, ainda que ele esteja regendo sua orquestra de uma gôndola isolada, longe do palco principal. E foi exatamente essa a cena que os deuses do futebol nos proporcionaram na última noite no Maracanã. Suspenso, Luis Zubeldía, nosso comandante argentino, foi transformado de general na linha de frente em um espectador torturado, trancado em uma cabine de imprensa enquanto o Fluminense lutava por sua vida na Libertadores.
A vitória por 2 a 1 sobre o Bolívar veio. Um resultado que, na frieza dos números, nos mantém com a chama da esperança acesa. Mas quem é tricolor sabe que nada para nós é simples, nada é sereno. E a personificação dessa angústia estava lá, em carne, osso e inquietação, no homem que deveria estar gritando e gesticulando à beira do campo.
Um Leão Enjaulado no Maracanã
Os relatos de quem estava na tribuna de imprensa pintam um quadro tragicômico e absolutamente familiar para qualquer torcedor do Fluzão. Zubeldía, o vulcão de energia que conhecemos, não se conteve. Chegou vinte minutos antes do apito inicial, cercado por sua comissão técnica, mas a verdade é que ele estava sozinho em seu próprio inferno particular.
Sentava, levantava, andava de um lado para o outro. Era um leão enjaulado. A cada chance perdida pelo nosso ataque – e, sejamos honestos, não foram poucas –, um lamento, um gesto de incredulidade. A cada gol, a explosão contida, a celebração de quem sabe o peso de cada bola na rede. Ele até teria deixado a cabine por alguns instantes, talvez para respirar, talvez para não quebrar o vidro à sua frente. Quem pode culpá-lo? A experiência de ser Fluminense, afinal, é um teste para os nervos.
Enquanto o time em campo mostrava superioridade, mas flertava perigosamente com o desperdício, o nosso técnico vivia o jogo em sua própria dimensão. Olhava para a TV posicionada ao seu lado, como se para confirmar a dor ou a glória que seus olhos viam no gramado. No segundo tempo, a cadeira virou um mero acessório decorativo. Ele não parou. Era a paixão pura, crua, que tanto pedimos, ali, exposta e impotente.
Maxi no Comando, Kennedy na Voz da Razão
No campo, a batuta estava com Maxi Cuberas, seu fiel escudeiro. Não era a primeira vez. O auxiliar já havia assumido o posto no início do ano, quando Zubeldía precisou passar por um procedimento no coração – uma ironia, considerando o tanto que este clube testa os nossos. E Maxi, mais uma vez, cumpriu seu papel com sobriedade.
A percepção do campo veio na voz de um dos nossos heróis, John Kennedy. O autor do gol do título eterno colocou as coisas em perspectiva. “Acho que o Maxi conseguiu suprir muito bem a ausência dele. Mas ele é a nossa liderança, (com ele) a gente ganha mais uma confiança”, declarou o atacante. É a síntese perfeita. A estrutura funciona, a máquina anda, mas a presença do líder, do farol, injeta algo a mais. “A gente tinha que entrar ali em campo e fazer o nosso melhor, e está tudo certo, não muda tanto. A gente vê o Maxi ali, ele é o homem de confiança do Zubeldía, e a gente confia nele também”, completou JK, mostrando a união do grupo.
A declaração de Kennedy é um atestado da mentalidade que Zubeldía tenta implementar. A confiança no sistema, no homem ao lado, é fundamental. O time não pode depender de um único grito, mas é inegável que o grito do argentino faz falta.
A Vitória que nos Mantém Vivos (e nos Mata do Coração)
Esta não foi a primeira suspensão do nosso técnico. Ele já havia cumprido uma no Campeonato Carioca. Mas na Libertadores, com tudo em jogo, o peso é diferente. A vitória por 2 a 1 foi crucial, mas a sensação que fica é a de que poderíamos ter tornado a noite menos… Fluminense. Menos cardíaca.
O esquadrão de Laranjeiras foi superior, criou, mas pecou na finalização. É um roteiro que conhecemos de cor e que nos causa calafrios. Em uma competição como a Libertadores, cada chance perdida é uma porta que se fecha, uma complicação que se cria para o futuro.
Agora, todos os caminhos levam à próxima quarta-feira. Às 21h30, teremos o duelo definitivo. O último jogo da fase de grupos, a última chance de carimbar a vaga nas oitavas de final. E, para o nosso alívio e para o desespero dos adversários, teremos nosso maestro de volta ao seu lugar de direito: à beira do gramado, vivendo, gritando e empurrando o Time de Guerreiros a cada segundo. Que sua agonia na cabine se transforme em fúria e inspiração no banco de reservas. Precisaremos de cada gota dela. Flu até morrer.
Informações com base em reportagem do ge.globo.com.