ZUBELDÍA ‘BURRO’? NÚMEROS DO ARGENTINO SUPERAM DINIZ E ÍDOLOS RECENTES

Vaiado e chamado de 'burro', Zubeldía vive inferno no Fluminense. Mas os números contam outra história e superam até mesmo Fernando Diniz.

Um Maracanã de vaias, uma planilha de aplausos

O som que ecoou pelo Maracanã no último empate em 2 a 2 com o Vitória foi ensurdecedor e inequívoco. O coro de “burro” direcionado a Luis Zubeldía marcou o ponto mais baixo da relação, até então morna, entre o treinador argentino e a exigente torcida do Fluminense. A paciência, ao que parece, esgotou-se para uma parcela da nação tricolor, que viu no tropeço em casa a gota d’água de uma sequência recente de resultados aquém do esperado.

Contudo, enquanto a arquibancada ferve em paixão e imediatismo, os números, frios e calculistas, contam uma história radicalmente diferente. Uma narrativa que, se fosse um roteiro de cinema, seria classificada como um paradoxo. O mesmo Zubeldía, hoje alvo de protestos, ostenta um desempenho superior ao de seus antecessores mais celebrados, incluindo o próprio Fernando Diniz.

Os números não mentem, mas a torcida também não?

Vamos aos fatos, tricolor. Deixemos a emoção de lado por um instante e olhemos para a matemática, essa ciência exata que não se abala por um drible errado ou um gol perdido. Em uma parceria com o Sofascore, os dados sobre o trabalho de Zubeldía foram dissecados, e o resultado é, no mínimo, surpreendente.

Desde que assumiu o comando do esquadrão de Laranjeiras, o argentino esteve à beira do campo em 48 partidas. O saldo? São 26 vitórias, 11 empates e 11 derrotas. Isso se traduz em um aproveitamento de 61,8%. Um número que, isoladamente, já é respeitável. Mas quando colocado em perspectiva, torna-se ainda mais impressionante.

Publicidade

Compare com as últimas passagens de técnicos que marcaram a história recente do clube:

  • Luis Zubeldía — 61,8%
  • Fernando Diniz — 58,0%
  • Renato Gaúcho — 57,7%
  • Mano Menezes — 51,0%

Sim, você leu corretamente. O aproveitamento de Zubeldía supera o de Diniz, o arquiteto do título da Libertadores; o de Renato Gaúcho, que nos levou a uma final continental; e o de Mano Menezes. No papel, o trabalho do argentino não é apenas bom, é estatisticamente superior ao de seus predecessores imediatos.

Uma muralha defensiva que começou a rachar

O bom desempenho não se limita ao aproveitamento geral. Um dos calcanhares de Aquiles históricos do Fluminense, a defesa, encontrou sob o comando de Zubeldía uma solidez notável. Em 48 jogos, o time sofreu apenas 44 gols, uma média de 0,9 por partida.

Essa marca iguala o desempenho defensivo da equipe sob Mano Menezes e é significativamente melhor que os números apresentados pelas equipes de Diniz e Renato Gaúcho. Então, se o ataque vence jogos e a defesa ganha campeonatos, por que a insatisfação?

Publicidade

A resposta está no retrovisor recente. A memória do torcedor é curta e focada no presente. E o presente do Fluminense não tem sido brilhante. A equipe venceu apenas duas das últimas oito partidas. São esses tropeços que pesam, que geram a desconfiança e que apagam, na percepção popular, o brilho de um trabalho estatisticamente sólido.

A Libertadores e a ferida que não cicatriza

Se há um fator que catalisou a impaciência da torcida, ele atende pelo nome de Copa Libertadores. A competição que é nossa obsessão foi palco dos tropeços mais dolorosos da “era Zubeldía”. A derrota para o modesto Independiente Rivadavia, em pleno Maracanã, foi uma facada no coração tricolor. Um resultado inaceitável para o atual campeão.

Como se não bastasse, o empate dramático na Argentina, no jogo de volta, só adicionou sal à ferida. Esses dois resultados deixaram o time em uma situação delicada na competição, dependendo de uma combinação de resultados e de uma performance impecável na reta final da fase de grupos. São esses momentos de alta tensão e baixa performance que constroem a narrativa de um trabalho “ameaçado”, independentemente do que as planilhas digam.

A palavra do ‘Mister’: Zubeldía reconhece a pressão

Para seu crédito, o treinador argentino não se escondeu atrás dos números ou de desculpas esfarrapadas. Após ouvir as vaias e os gritos de “burro”, Zubeldía foi à coletiva de imprensa e mostrou-se ciente do furacão que o cerca.

Publicidade

“Quando os resultados não acontecem e não se joga ou se vence como todos esperam, as consequências nós já conhecemos. Os torcedores sempre têm o direito de apoiar ou reprovar, porque pagam ingresso para isso”, declarou o técnico, em um raro momento de lucidez e respeito no futebol moderno.

Ele continuou, traçando o caminho para a redenção: “Precisamos demonstrar que podemos voltar a vencer e alcançar os objetivos que o clube tem. […] É normal que o treinador seja criticado. […] Simplesmente [devemos] trabalhar para que os resultados mudem, para que a equipe volte a recuperar a confiança que tinha, volte a jogar bem e consiga voltar a vencer.”

A fala demonstra um profissional que entende a cultura do futebol e a paixão da torcida. Resta saber se o discurso se converterá em resultados práticos, pois no Fluminense, a elegância é apreciada, mas as vitórias são exigidas.

Estamos diante de um dilema clássico: a frieza dos dados contra o calor da arquibancada. Os números pedem paciência e mostram um caminho promissor. A sequência recente e os tropeços em momentos cruciais, porém, acendem um alerta vermelho. E você, torcedor tricolor, de que lado está nesta equação? A hora é de apoiar ou de cobrar uma mudança de rumo?

Informações com base em reportagem do www.lance.com.br.