O Som da Decepção no Maracanã
Há sons que um tricolor jamais esquece. O hino à capela. O grito de gol em final. E há sons que ferem a alma. Neste sábado, no Maracanã, um novo e doloroso som ecoou das arquibancadas para o gramado: “burro”. O destinatário? Luis Zubeldía. Sim, o mesmo treinador que há pouco mais de um mês parecia a reencarnação de um estrategista genial, o homem que colocaria a máquina tricolor nos eixos.
O empate em 2 a 2 com o Vitória, um resultado que em outras épocas seria apenas um tropeço, soou como o estopim de uma panela de pressão que vinha fervendo em fogo baixo. A lua de mel, se é que existiu, acabou da forma mais carioca e passional possível: com a paciência da torcida se esgotando em praça pública.
De Herói Anunciado a Alvo da Fúria
É preciso rebobinar a fita, não muito, apenas um mês. O Fluminense de Zubeldía era elogiado, brigava na parte de cima da tabela do Brasileirão e exibia um futebol que, se não era sempre brilhante, era competitivo e organizado. Havia uma sensação de estabilidade, uma crença de que, enfim, tínhamos um comando técnico à altura de nossa história.
O argentino, com seu ar professoral e promessas de intensidade, parecia ter decifrado o complexo DNA do clube. Os aplausos eram a trilha sonora de seu início de trabalho. Mas o futebol, essa amante cruel e inconstante, tem seus próprios roteiros. E o de Zubeldía no Fluzão começou a desandar em uma sucessão de eventos que transformaram o conto de fadas em crônica de um colapso anunciado.
A Anatomia de um Desmoronamento
Onde tudo começou a ruir? A análise fria aponta para Curitiba. Contra o Coritiba, mesmo com um time misto, o Fluminense fazia uma partida correta. Até um gol ser anulado. A partir dali, o que se viu foi um time que desabou emocionalmente, uma fragilidade que se tornaria marca registrada nas semanas seguintes.
Logo depois, o primeiro grande alerta na competição que é nossa obsessão. O empate sem gols contra o Deportivo La Guaira, na Venezuela, pela Libertadores. Era, no papel, o jogo mais acessível do grupo fora de casa. Um jogo para garantir três pontos e tranquilidade. Saímos com um, e com a pulga atrás da orelha.
A situação azedou de vez no clássico. Derrota para o nosso maior rival, o Flamengo, em uma partida cercada de polêmicas sobre adiamento, mas na qual, em campo, fomos engolidos. A atuação ruim deixou um gosto amargo e a certeza de que algo não ia bem. O ambiente, antes leve, começou a pesar.
O Ponto de Ruptura e a Promessa Quebrada
Se havia um momento para estancar a sangria, ele se foi na noite da virada sofrida para o Independiente Rivadavia, em pleno Maracanã. Aquilo não foi uma derrota; foi uma fratura exposta na alma da equipe e da torcida. Perder em casa, de virada, em uma partida crucial de Libertadores, foi o ponto de ruptura. A confiança no trabalho de Zubeldía sofreu seu primeiro grande abalo.
O que veio a seguir foi a consequência direta desse desastre. A viagem para La Paz, para enfrentar o Bolívar, que antes era vista como um “jogo perdível” pela altitude, tornou-se uma obrigação de pontuar. Não só perdemos, como jogamos muito mal. Todas as garantias de Zubeldía em sua coletiva, sobre como o time se portaria para minimizar os efeitos da altura, foram por água abaixo. O time fez exatamente o contrário do prometido.
Uma vitória solitária contra o Santos na Vila Belmiro surgiu como um oásis no deserto, mas foi miragem. Não foi suficiente para acalmar os ânimos ou restaurar a confiança. A sequência foi de puro sofrimento: um empate suado contra o Operário na Copa do Brasil e uma vitória no sufoco contra a Chapecoense em casa, que mais pareceu um parto.
O Veredito Final: Um Empate com Gosto de Derrota
E assim chegamos ao fatídico sábado. O empate em 2 a 2 com o Vitória foi apenas o capítulo final dessa trágica ópera. O Maracanã, que já aplaudiu Zubeldía, agora o julga com a impaciência de quem se sente traído em suas esperanças. Os gritos de “burro” são o veredito de uma torcida que viu um time promissor se transformar em um amontoado de jogadores nervosos e sem rumo.
A questão que paira sobre as Laranjeiras é complexa. A queda é culpa exclusiva do treinador ou um reflexo de problemas mais profundos no elenco e na gestão? Uma coisa é certa: o crédito do professor argentino, que parecia ilimitado, está perigosamente perto de zerar. E no Fluminense, como bem sabemos, a linha entre o céu e o inferno é tão curta quanto a distância entre um aplauso e uma vaia. Flu até morrer.