O Fantasma do Camisa 10 no Maracanã
Em uma noite de futebol morno e um empate amargo em 2 a 2 contra o Vitória, no Maracanã, a ausência de um nome pesou mais do que qualquer jogada em campo: Paulo Henrique Ganso. O Maestro não estava nem no banco, mas seu fantasma pairava sobre a 15ª rodada do Brasileiro, alimentando um debate que a nação tricolor não quer, mas precisa ter.
A versão oficial, divulgada pelo clube, aponta para uma prosaica “virose”. Uma justificativa que, em qualquer outro contexto, passaria despercebida. Contudo, no futebol, coincidências costumam ter nome, sobrenome e, neste caso, um número mágico: 12. O técnico Luis Zubeldía, em sua coletiva, tentou apagar o incêndio com um copo d’água, mas suas palavras só adicionaram mais combustível à fogueira da especulação.
A Palavra do ‘Mister’ e a Fria Realidade dos Números
Questionado sobre o futuro de seu camisa 10, Zubeldía foi categórico, quase ensaiado. “Contamos com ele. Ele não pôde estar por uma questão de saúde, o médico pode dar detalhes da situação. Mas conto com ele”, afirmou o treinador argentino. Uma declaração de apoio público, um afago no ego de um craque, mas que soa dissonante quando confrontada com a realidade.
A verdade, tricolores, está nos minutos em campo. Ou na falta deles. Nos últimos seis jogos do Fluzão, nosso Maestro foi utilizado em apenas dois. Contra Santos e Chapecoense, entrou no apagar das luzes para somar irrisórios 14 minutos no total. Nas outras partidas, ou esquentou o banco como um reserva de luxo não utilizado, ou esteve ausente por questões médicas. Como um técnico “conta com” um jogador que ele mal coloca para jogar?
A Matemática do Adeus: O Jogo de Número 12
Aqui, a trama se adensa e a tal “virose” ganha contornos de estratégia. Paulo Henrique Ganso disputou, até o momento, exatas 12 partidas neste Campeonato Brasileiro. A regra é clara: caso um atleta atue em 13 jogos por um clube na Série A, ele não pode mais se transferir para outra equipe da mesma divisão na mesma temporada.
A ausência contra o Vitória, portanto, não foi apenas uma ausência. Foi a manutenção de uma porta aberta. Uma porta que leva diretamente para a janela de transferências do meio do ano. Deixar Ganso no “limbo” dos 12 jogos o mantém como um ativo negociável, uma peça que pode render algum fruto financeiro ao clube ou, no mínimo, aliviar a folha salarial.
É impossível não conectar os pontos. A súbita condição de saúde surge exatamente no momento em que seu futuro no esquadrão de Laranjeiras está mais incerto do que nunca. Para o torcedor mais cínico — e o futebol nos ensina a ser — a “virose” tem cheiro de precaução de mercado.
Silêncio em Laranjeiras e um Contrato na Reta Final
Enquanto os rumores correm soltos, o silêncio nos bastidores do Fluminense é ensurdecedor. Formalmente, o clube não procurou o camisa 10 para absolutamente nada. Nem para comunicar uma decisão de não permanência, nem para iniciar conversas sobre uma renovação contratual. O jogador vive em uma espécie de vácuo institucional.
Fontes indicam que “sondagens” de outros clubes aconteceram, mas nenhuma proposta oficial chegou à mesa da diretoria tricolor. É um jogo de xadrez em que ninguém parece querer mover a primeira peça. Enquanto isso, o tempo corre.
Vale lembrar que o vínculo de Ganso com o Tricolor das Laranjeiras vai até dezembro de 2026. Isso significa que, a partir de julho, caso a decisão seja por não renovar, ele já estaria livre para assinar um pré-contrato com qualquer outra equipe e sair de graça ao final do seu acordo. A inércia da diretoria, nesse cenário, é no mínimo preocupante.
E Agora, Fluminense?
A situação é um paradoxo. Temos um técnico que afirma contar com o jogador, mas cujas ações em campo provam o contrário. Temos um jogador tecnicamente indiscutível, mas que se tornou uma peça periférica no esquema tático. E temos um contrato que, embora longo, já permite movimentos de mercado que podem ser prejudiciais ao clube no futuro.
Será que estamos testemunhando o fim melancólico da era de um dos jogadores mais elegantes que vestiram nosso manto sagrado nos últimos anos? Ou será que Zubeldía, com sua cara de poucos amigos e seu pragmatismo argentino, tem um plano genial que ainda não conseguimos decifrar? A torcida das Laranjeiras aguarda, com o coração na mão, o próximo capítulo desta novela. A janela de transferências está aberta, e o futuro do nosso Maestro, também. Flu até morrer.
Informações com base em reportagem do ge.globo.com.