Vencemos. Mas, no apito final, o silêncio no Maracanã dizia mais do que o placar de 2 a 1. A vitória contra o Bolívar, que deveria ser uma celebração, teve o gosto amargo da insuficiência. E ninguém, absolutamente ninguém, resumiu melhor o sentimento da nação tricolor do que Canobbio, em uma daquelas raras e dolorosas demonstrações de sinceridade que o futebol nos proporciona.
A noite era de final, mas o roteiro foi de tragédia grega. O Fluzão entrou em campo com uma missão clara, quase hercúlea: vencer por três gols de diferença para não depender de ninguém na Libertadores. E por um momento, parecíamos capazes. O Time de Guerreiros, em sintonia perfeita com as arquibancadas, jogou um futebol avassalador e encontrou o primeiro gol rapidamente, incendiando o estádio.
O ar cheirava a classificação. A torcida empurrava, o time correspondia. O segundo gol parecia questão de tempo. Mas o futebol, em sua cruel imprevisibilidade, tem seus próprios planos. Um descuido, uma defesa desalinhada e o Bolívar, que parecia frágil, achou um empate que caiu como uma bomba no coração do Maracanã. A confiança, antes inabalável, ruiu.
‘Copo meio cheio, meio vazio’, a análise crua de Canobbio
Na zona mista, enquanto outros poderiam buscar desculpas, Canobbio abriu o coração. Suas palavras são um soco no estômago de tão precisas. “É muita raiva, um sentimento de copo meio cheio, meio vazio”, disparou o jogador, traduzindo o paradoxo que todos sentíamos.
Ele continuou, com uma lucidez desconcertante: “No primeiro tempo, conseguimos um gol muito rápido, estávamos empolgados para buscar o segundo e tomamos um gol que não estava no planejamento do jogo. Como estávamos, como a torcida estava puxando, a gente sentia dentro de campo. Estava maneiro para buscar o segundo gol e mais.”
Canobbio ainda fez questão de ressaltar as armadilhas do esporte. “Futebol não é só questão de jogar bem, de resultado justo. Nós conseguimos fazer o segundo antes do que eles. O goleiro deles foi bem. É o futebol, não é resultado justo”, lamentou, antes de cravar a dolorosa realidade: “Agora dependemos de outro time para nos classificar. A fé é a última que se perde.”
Um segundo tempo de desespero e um herói solitário
Se o primeiro tempo foi do céu ao inferno, a segunda etapa foi um purgatório de erros e impaciência. A torcida, antes combustível, agora era um mar de ansiedade. O time sentiu. Os passes não encaixavam, as finalizações eram tortas, a organização tática se esvaía.
Aos 10 minutos, o técnico Cuberas tentou uma cartada de desespero, colocando Castillo e mandando o time para um “tudo ou nada”. O Fluminense ganhou em pressão, mas perdeu completamente a organização. A bola rondava a área boliviana, mas faltava a qualidade, o último passe, a calma para transformar o volume em gols.
Foi então que, aos 25 minutos, a estrela de um predestinado brilhou. John Kennedy, sempre ele, achou o gol da vitória. Um 2 a 1 que, em qualquer outra circunstância, seria celebrado. Mas não naquela noite. O gol da vitória foi apenas um alívio momentâneo, insuficiente para alterar o panorama desolador. Pouco depois, o próprio Kennedy foi substituído, e com ele pareceu ir embora a última fagulha de esperança por um milagre.
Agora é secar e focar no Brasileirão
O apito final confirmou o que já sabíamos: a vitória não bastou. Agora, o destino do Fluzão na Libertadores está nas mãos, ou melhor, nos pés do Independiente Rivadavia. Precisamos torcer por um tropeço dos bolivianos para seguirmos vivos. Uma situação humilhante para a grandeza do Fluminense.
Enquanto ligamos as velas e preparamos os amuletos para secar o Bolívar, a vida segue. O próximo compromisso já bate à porta: o confronto contra o Mirassol, no sábado (23), fora de casa, pelo Campeonato Brasileiro. É hora de virar a chave, lamber as feridas e mostrar que, apesar da raiva e da frustração, este time ainda tem muito a lutar. Porque, como bem disse Canobbio, a fé é a última que se perde. E ser tricolor é, acima de tudo, um ato de fé.