Um Herói Solitário no Coração do Maracanã
Há noites em que o futebol se revela em sua forma mais cruel e poética. Neste sábado, pela 15ª rodada do Campeonato Brasileiro, o Maracanã foi palco de uma dessas óperas. De um lado, um Fluminense que, em teoria, dominou. Do outro, um Vitória que, com eficiência cirúrgica, quase nos impôs um vexame em nossa própria casa. No meio de tudo, um protagonista: John Kennedy. O Urso. O garoto que carrega nas costas o peso de um time inteiro e a alma de uma nação tricolor.
Com um gol e a jogada que salvou um ponto, ele foi, sem margem para dúvida, o dono do espetáculo. Mas ao apito final, o placar de 2 a 2 soava como uma nota dissonante, um insulto. E ninguém traduziu melhor esse sentimento do que o próprio camisa 9. Sem meias palavras, com a honestidade que só os verdadeiros ídolos possuem, ele verbalizou o que cada um de nós sentia nas arquibancadas e no sofá de casa.
“A torcida não saiu com esse gosto de vitória. Acho que saiu realmente, assim como a gente, com gosto de derrota”, disparou Kennedy. Uma frase que ecoa como um manifesto. Não há consolo no empate quando se é gigante. Não há alívio quando a vitória escapa por entre os dedos por erros que se repetem à exaustão.
A Anatomia de uma Noite Frustrante
Vamos aos fatos, caros tricolores. Aos 35 minutos do primeiro tempo, a justiça parecia se fazer presente. John Kennedy, sempre ele, mostrou seu faro de artilheiro ao aproveitar uma sobra na área e estufar as redes do goleiro Lucas Arcanjo. O Fluzão controlava, propunha o jogo, e o gol era a consequência natural de uma superioridade que, infelizmente, se provou frágil.
O segundo tempo veio e, com ele, os fantasmas de sempre. Em dois lances, duas desatenções, a virada do Vitória. Um roteiro macabro que já conhecemos de cor. Foi então que, na reta final, o espírito do Time de Guerreiros se materializou em uma única figura. Kennedy fez uma jogada individual espetacular, um rasgo de pura genialidade e raça, e serviu Serna, que nos deu o empate. Um gol que evitou o pior, mas que não apagou a sensação de fracasso.
O próprio atacante fez a leitura perfeita do ocorrido. “A gente propôs o jogo inteiro e, como eu falei anteriormente, foram duas bolas deles e eles acabaram fazendo os dois gols. Não existe isso de insegurança. A gente tem que entrar em campo confiante no nosso trabalho. A gente tem que entrar e vencer”, analisou, com a maturidade de um veterano.
O Recado do Artilheiro para o Time e a Torcida
Enquanto parte da torcida, compreensivelmente frustrada, dirigia suas vaias ao técnico Luis Zubeldía, John Kennedy assumia outra postura. A de líder. A de quem entende que, no fundo do poço, a única saída é para cima, e juntos. Ele reconheceu a falha, o descuido que não pode voltar a acontecer, especialmente nas bolas paradas que se tornaram nosso calcanhar de Aquiles.
“Acho que a gente tem que levantar a cabeça, isso já passou. Nos descuidamos em dois lances e sofremos dois gols. Acho que isso não pode voltar a acontecer. Agora é decisão. A gente tem que chegar e ganhar”, afirmou, cravando que crises só se resolvem com vitórias. Uma obviedade que, em Laranjeiras, parece ter se tornado um conceito complexo.
Seu apelo mais forte, no entanto, foi para nós, a nação tricolor. “Nesse momento, eu só peço para o nosso torcedor que venha, que encha o estádio, porque o apoio da torcida é muito importante para nós. Que venha para apoiar, porque a nossa torcida é o nosso décimo segundo jogador”. Um pedido sincero de quem sabe o poder do Maracanã pulsando em uníssono. Ele sabe que a jornada na Copa do Brasil e a batalha pela sobrevivência na Libertadores, contra o Bolívar, exigirão essa comunhão.
Um Farol de Esperança na Tempestade
Em meio ao momento turbulento, John Kennedy segue como nosso porto seguro. Com o gol de ontem, ele chegou a 11 na temporada, se isolando ainda mais na artilharia do Fluminense. Mas seus números, embora expressivos, contam apenas parte da história. O que vimos neste sábado foi mais do que um artilheiro; vimos um líder que não se esconde, que assume a responsabilidade e que fala a língua da arquibancada.
Ele é a prova viva de que a chama da paixão e da luta ainda arde no esquadrão de Laranjeiras. A grande questão que fica é: quantos mais estão dispostos a lutar com a mesma intensidade? O desabafo de Kennedy não é apenas uma lamentação, é uma convocação. Uma chamada para que o time recupere a confiança e para que a torcida, mesmo ferida, abrace a equipe. Porque, como o próprio Urso disse, só conseguiremos sair dessa situação vencendo. E para vencer, o Fluminense precisa ser um só. Que a voz do nosso herói solitário ecoe por todo o clube. Flu até morrer.