Um espetáculo de vaias e um ponto que não consola
O apito final soou no Maracanã neste sábado (9) como um alarme de incêndio. O placar eletrônico, teimoso, insistia em exibir um 2 a 2 entre Fluminense e Vitória, mas para a nação tricolor presente, o sentimento era de uma derrota acachapante. O que deveria ser uma tarde tranquila de afirmação no Brasileirão se transformou em um palco de protestos, com o técnico Zubeldía como alvo principal da ira, ao som de um coro nada sutil de “burro”.
Não há maquiagem que esconda a cicatriz. O Fluzão, que tinha a faca e o queijo na mão para se manter firme na terceira posição, vacilou de forma quase amadora. Agora, com 27 pontos, vemos pelo retrovisor a concorrência se aproximando, pronta para nos tomar o lugar no pódio. O empate, conquistado na base do desespero nos acréscimos, não serve de consolo. Serve como um alerta ensurdecedor de que algo está profundamente errado no esquadrão de Laranjeiras.
John Kennedy: um profeta no deserto
Houve um tempo, nos primeiros 45 minutos, em que a elegância tricolor parecia ditar as regras. O time tinha o controle, a posse, a soberania territorial. E, como tem sido costume, a luz brilhou nos pés dele: John Kennedy. Aos 35 minutos, o Urso mostrou seu faro de gol. Aproveitando uma sobra na área, com a frieza de um veterano, rolou a bola no cantinho, tirando qualquer chance do goleiro Lucas Arcanjo. Um gol que trouxe um suspiro de alívio e a falsa sensação de que a noite seria de paz.
O camisa 9 foi, sem qualquer margem para discussão, o melhor em campo. Um oásis de talento em meio a um deserto de ideias. Além do gol, foi dele uma jogada espetacular que, no apagar das luzes, deixou Serna na cara do gol para decretar o empate. Kennedy joga com uma paixão que parece faltar em outros setores do time. Ele briga, cria e finaliza. É a personificação do ‘Time de Guerreiros’ que a torcida tanto clama por ver.
O pecado capital de Alisson e a complacência que custou caro
Se o primeiro tempo foi de controle, a segunda etapa foi um manual de como não se comportar com a vantagem no placar. O Fluminense deitou em berço esplêndido, achando que a vitória viria por inércia. E o futebol, essa dama cruel, não perdoa a soberba. O Vitória, que nada tinha a ver com nossa letargia, sentiu o cheiro de sangue.
O momento da virada do jogo tem nome e sobrenome: Alisson. Em um lance de uma infantilidade que não condiz com um profissional do seu calibre, o volante cometeu um pênalti que mudou a história da partida. Sem olhar para a bola, ele simplesmente agarrou o adversário dentro da área. Um presente de grego que Renato Kayzer não hesitou em aceitar, empatando o jogo. A arquibancada, que até então apoiava, não perdoou. As vaias que se seguiram foram a trilha sonora do seu calvário pessoal, que culminou em sua substituição. Para piorar, o mesmo Alisson esteve envolvido na jogada do segundo gol adversário, marcado por Renê. Um dia para esquecer, que mancha uma atuação que vinha sendo correta.
Zubeldía no banco dos réus
Com a virada do Vitória, o Maracanã se transformou em um tribunal. E o réu era claro: o técnico Zubeldía. Os gritos de “burro” ecoaram do setor norte ao sul, uma manifestação clara de que a paciência da torcida das Laranjeiras está no limite. A passividade do time, a queda vertiginosa de produção e a demora em reagir foram creditadas ao comandante.
Curiosamente, foi apenas após as entradas de Riquelme e Guga que o time demonstrou algum poder de reação, uma fagulha de urgência. Isso só levanta mais questões: por que demorar tanto para mexer? Por que permitir que o adversário tomasse conta da partida mental e taticamente? O empate no fim, com o gol de Serna, evitou o pior, mas não apagou a péssima impressão e a sensação de que o time está à deriva. A pressão sobre Zubeldía é imensa, e o próximo jogo, contra o Operário pela Copa do Brasil, na terça-feira (12), ganha contornos de final.
Ficha Técnica da Partida
FLUMINENSE 2 X 2 VITÓRIA
- Competição: Brasileirão — 15ª Rodada
- Data e Horário: Sábado, 9 de maio de 2026, às 18h (de Brasília)
- Local: Estádio do Maracanã, Rio de Janeiro (RJ)
- Gols: John Kennedy (35’/1T), Serna (45’/2T) para o Fluminense; Renato Kayzer (16’/2T), Renê (21’/2T) para o Vitória.
- Cartões Amarelos: Alisson e Riquelme Felipe (FLU); Ramon, Renato Kayzer (VIT)
Escalações:
Fluminense:
- Fábio; Samuel Xavier (Guga), Ignácio, Millán e Renê; Alisson (Hércules), Nonato (Castillo) e Acosta; Savarino (Riquelme), Soteldo (Serna) e John Kennedy.
Vitória:
- Lucas Arcanjo; Nathan Mendes, Caíque (Zé Breno), Luan Cândido e Ramon; Baralhas (Ronald Lopes), Zé Vitor e Emmanuel Martínez; Renê (Renzo López) e Renato Kayzer (Tarzia).
A noite que poderia ser de festa terminou em frustração. Resta saber se os ecos do Maracanã serão ouvidos em Laranjeiras. A resposta precisa vir logo, pois o calendário não perdoa. Flu até morrer, sempre. Mas sofrer assim não estava no contrato.